YAGO TOSCANO

Nos trabalhos expostos há uma inquietação provocada pela imagem do pássaro. Esta imagem surge nos trabalhos como um fantasma, uma aparição; o voo de um pássaro trata-se de um vulto, uma passagem, uma imagem efêmera. A sua captura, a decadência e decrepitude de sua imagem reforçam uma releitura dos gestos de violência na contemporaneidade. Acredita-se que ao furar os olhos de um pássaro, ou seja, levar um de seus sentidos a decadência, outro sentido é potencializado, o canto. Este hábito popular tornou-se inspiração para a música “Assum preto” de Luiz Gonzaga, que diz que o Assum preto canta de dor sem ver a luz do dia. O seu canto é um lamento na escuridão.

A ideia de aparição presente na imagem do voo do pássaro surge na série fotográfica “a noite que devorou o mundo”. A espectralidade da violência no ato de censura e opressão dos corpos dissidentes nas margens da sociedade surge nas imagens que utiliza gestos antagônicos, o de costura e libertação, suscita o atual contexto político brasileiro. O trabalho faz referência direta aos presidiários que costuram a boca em protesto aos maus tratos promovidos pelo sistema carcerário brasileiro. E assim como os pássaros, anseiam por sua liberdade, o verbo voa.

A obsidiana negra é uma pedra resultante do resfriamento acelerado da lava vulcânica. Seu uso foi muito presente em diversas culturas, mas especificamente nos povos originários da América Latina. Os maias utilizavam a pedra para refletir a noite e o dia, mas também para se comunicar com a morte. Para além do uso místico, a obsidiana negra também era utilizada para confecção de armas de combate, caça e guerra. O processo de invasão, exploração e colonização da América Latina contribuiu com o desaparecimento de muitas culturas, incluindo a Maia.

No Brasil, os tupis e sua cultura foram ameaçados ao desaparecimento na escuridão da história. A ligação dos povos indígenas com a noite é muito presente em sua cultura. Muitos heróis indígenas tornam-se, como dizem as muitas lendas, a noite ou um pássaro. No trabalho “o nascimento da noite” há uma busca por uma poética da noite, através dos meandros da história e das diversas ações de violência que a demarcaram. Pássaros noturnos como o Urutau, são muito simbólicos para os povos originários e fazem parte de um grande imaginário e de lendas dessas culturas. Dizem que o pássaro era um índio que foi teve sua amante sacrificada e, de tanto sofrer, um xamã o transformou em um pássaro amaldiçoado a cantar durante a noite, todo o seu lamento e tristeza.

MINI BIO

Graduando em Artes Visuais optou, no entanto, por forjar sua formação através do “léxico” da rua, daquilo que nos ensina a violência à que somos submetidos pelo Estado e pelos poderes públicos. Compreende a violência como eixo central para sua pesquisa, mas também compreende que sua vivencia na Baixada Fluminense (RJ) tem grande protagonismo em suas produções. Em sua recente trajetória, entre várias questões pelas quais se interessa, tem voltado sua atenção para a ideia aparição promovida na imagem do pássaro, motivado pelos eventos de violência que se manifestam em seus múltiplos contextos. A partir dessa reflexão, Yago compreende na imagem do pássaro um lugar de efemeridade, de memória e ligação com sua história e raízes, mas também uma possibilidade de estabelecer diálogos e produzir crítica diante aos múltiplos gestos e ações de violência na contemporaneidade. Assim, Yago sobrevoa com sua poética, utilizando como gancho temas e conceitos como a noite, o deserto, o vulto, o vazio, o evento para estabelecer diálogos e possibilidades críticas sobre o atual contexto político brasileiro, e sua vivência em uma cidade de terceiro mundo.

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