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THIAGO AZEVEDO, Pará

Fotografia

NASCIDOS DO MANGUE

Mangue Útero. Água, rio e Barro – Mangue, não é lama, nem é barro. Mas entidade formadora de vida. Entre veias e artérias em forma de raízes de mangue. Espaço nascente de personagens que se moldam numa simbiose uma vez por ano na cidade de Curuçá para sair às ruas. O som do curimbó, banjo, sax, maracas e chocalhos, formam o ritmo que marca a batida dos nascidos do mangue. Que se levantam deslumbrados com o mundo novo que se abre aos olhos.

Essa paisagem se formou por meio de uma intensa interação entre culturas que a fez o município de Curuçá ser conhecido como a “Terra do Folclore”. Lar de encantados que habitam sua natureza exuberante, entre rios e raízes de manguezal, o município foi incrustado nessa relação entre ser humano e natureza. A partir disso fez surgir uma musicalidade moldada nessa interação entre sons da mata e dos rios que a fez também ser conhecida como “Terra do Carimbó”, entre rodopios e o batuque dos curimbós, os mestres cantadores cantam sobre pescadores e catadores de caranguejos dos mangues. A forte manifestação cultural da região, que dialoga o ser humano com essa natureza indomável dos mangues, fez nascer um tradicional bloco de carnaval na cidade e que reverbera para outras regiões do estado do Pará e tem repercussão nacional: O “Pretinho do Mangue”. Criado em 1989 por dois amigos moradores da cidade, utilizaram essa forma de performance para demostrar sua frustração pelo fato de irem ao mangue para conseguir alimento e não obterem êxito na retirada do caranguejo, por conta da falta de cuidado das pessoas para com a preservação do espaço. Assim, eles se “montaram” com a lama como “nascidos do mangue”, saíram pela cidade para motivar o cuidado com essa natureza, para que não faltasse alimento no futuro. Em 2010 o bloco se tornou Patrimônio Cultural do Município através da lei no 1.981, de 12 de fevereiro e Patrimônio Cultural do Estado do Pará por meio da lei no 7.383, de 16 de março. Dada sua importância simbólica na região e no estado, que a cada ano atrai mais seguidores.

Nesse processo de “construção das fantasias”, o corpo atua como molde para a matéria- prima, onde todos os integrantes criam suas “personagens” moldadas pelo mangue. Outra forma de refletir é que esses “brincantes”, nesse ato de criar suas “esculturas” a partir da lama, pode-se pensar numa leitura a partir do mito do surgimento da humanidade, “homem e mulher são nascidos do barro”, nesse caso, do mangue. Dessa forma, isso não representa apenas um simples momento de se “sujar”, mas um diálogo com a paisagem. Uma espécie de simbiose entre o humano e a natureza, os tornando unos diante dessa Numinosa paisagem curuçaense.

  • Professor Assistente no curso de Design da Universidade do Estado do Pará, Doutorando em Artes pelo PPGARTES/UFPA, Mestre em Artes pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará - UFPA, possui MBA em Marketing pela Universidade da Amazônia - UNAMA e graduação em Bacharel em Design com Habilitação em Produtos pela Universidade do Estado do Pará (2006). Membro do grupo de pesquisa: Desenvolvimento de Produtos com Materiais Amazônicos - DEPROMA. Tem experiência na área de Desenho Industrial, com ênfase em Desenho de Produto, atuando principalmente nos seguintes temas: design, educação do design, arte, artesanato, fotografia, imagem e memória.

  •   Procuro relacionar minha produção à poesia que me marca, no caso, tenho tatuado em mim os versos de Manoel de Barros que no meu entendimento representam o pensar fotográfico: “O Olho vê, a Lembrança Revê e a Imaginação Transvê. É preciso Tranver o Mundo”. Nessa perspectiva, caminho pela região da Reserva Extrativista Mãe Grande de Curuçá em busca de cenas desse cotidiano simples, colorido e alegre do interior do Pará e assim ser marcado e ao mesmo tempo transver a vida de outra forma, dialogando com a premissa do poeta Paes Loureiro entre o Imediato pragmático, com o Mediato místico e mágico da floresta.

(Texto extraído do portfólio do artista)

 

Observação da organização:

Os trabalhos expostos na exposição virtual, podem sofrer alterações de tamanho para não ficarem prejudicados a visualização pela web.