Raïssa de Góes.jpg

"Uma perturbação na intimidade."

 

 

Movimento incessante, contínuo, um jogo sem fim. O corpo mesmo e o corpo outro se torcem, se ocupam, se ejetam. Torções. Pesquiso essa ideia de torções a partir da topologia, sobretudo a fita de Moebius e Garrafa de Klein, me interessa a ideia de paradoxo que essas figuras mostram. Um dentro que é fora, espaços de superfícies que não se anulam. São essas as ideias que me povoam quando estou no ateliê diante dos materiais: tela, tinta, pincéis, cores, ideia, corpo. A pintura, afinal, fala de matéria, fala de seu próprio corpo, ela é matéria. Não se trata apenas de uma construção formal ou cerebral, há uma fisicalidade, uma experiência erótica. Corpo do objeto e meu corpo que se posta pra jogo. Como uma bailarina, como uma atleta num ringue ou campo de futebol, me coloco em uma presença total para que mãos e olhos tomem conta de tudo e trabalhem na construção da imagem, da tela. 

Meus olhos recortam partes do corpo, fragmentos de figuras e as mãos as colocam na superfície da tela ou papel. Depois, há o trabalho de tirar o que é reconhecível da figura, o que procuro, talvez, seja isso: produzir figuras que não são reconhecíveis, mas sejam o rastro, ou vestígio, de um corpo que conhecemos. 

 

 

MINI BIO

RaïssadeGóeséartistavisualeescritora. 

Sua formação inclui a Escola de Artes Visuais no Parque Lage e Literatura, com ênfase em Formação do escritor no Departamento de Letras da PUC- Rio.
Durante esse percurso, lançou quatro títulos pela ed, 7Letras (Malhada Vermelha, Volta, Autorretrato e Casamata) e participou de exposições coletivas como Palavra, Sentado à beira do tempo- poética de Murilo Mendes, entre outras, e de uma individual Memória e Esquecimento na galeria do espaço Cultural Sergio Porto. 

Atualmente, vive e trabalha na cidade do Rio de Janeiro. 

 

 

Minha trajetória vem sendo traçada entre a escrita e a imagem. Durante alguns anos produzi trabalhos em vídeo e fotografia que traziam questões parecidas àquelas que pesquisava na literatura e conceitualmente. Uma delas é sobre o esquecimento, penso o esquecimento como uma força que não apaga completamente, mas deixa os rastros. Comecei a pensar nesses rastros com fragmentos que podem compor uma nova narrativa ou imagem, sem deixar de ser o que foram. Algo entre o apagado e o rastro. Outra pesquisa que estudo é sobre a ideia de torções, a partir de objetos da topologia, como a fita de moebius. Objetos que “encarnam” paradoxos, por exemplo: na referida fita de moebius o dentro e fora não se anulam, mas coabitam. Foi pensando nessas questões que cheguei à pintura. Busco os rastros de imagens do corpo, as torções do corpo.