MÁQUINA DE TECLAR PENSAMENTOS

 

Paulo Robalo

A Máquina de Teclar Pensamentos apresenta um dispositivo plástico, sonoro e videográfico que promove o encontro entre uma família de desenhos de escala generosa, a dramaturgia de um texto e a construção de um design sonoro criados de raiz para este projecto. Pretende-se criar no espaço uma atmosfera  performática que balança entre a representação teatral e uma apresentação de artes plásticas.

Esta exposição nasceu da produção de uma sequência de desenhos de cabeças veladas em rotação de 360 graus e reflecte uma fusão entre a anatomia das figuras cegas e elementos que constituem uma máquina de escrever, numa tentativa de promover a reflexão em torno de questões relacionadas com a condição humana, que vêm no seguimento das inquietações e do meu processo de  criação artística.

Para enriquecer este projecto convidei o Luís Robalo, que criou um texto onde se estabelece um diálogo interior de uma cabeça consigo própria; o David Diogo, que idealizou e compôs a sonoplastia constituída por ambiências sonoras retiradas do meu trabalho no atelier e dos sons produzidos por uma máquina de escrever.

Para completar esta fusão foram convidados a interpretar o texto o seu autor, as actrizes Cristina Cavalinhos e Joana Marques e o actor João Didelet.

Posteriormente foi ainda convidado a integrar esta família o Miguel Diogo que criou um filme de promoção da exposição e um registo vídeo dos autores numa espécie de leitura encenada do texto.

Este é um projecto transversal ao meu processo de trabalho e continua em contante desenvolvimento.

(...) “a minha opinião definitiva para arrumarmos o assunto, os pensamentos, mesmo enfadonhos, são a razão de sermos. Mesmo mancos e pernetas é que, como te cumpririas, se não pensasses?”(...)


 *O princípio deste projecto foi apresentado a 7 de Maio de 2016 no Atelier/Galeria Passevite em Lisboa .

MONÓLOGO - LUIS E PAULO ROBALO

A MÁQUINA DE TECLAR PENSAMENTOS
De Luis Robalo

A -“Estamos sempre a pensar”.
B -“E a respirar”.
A -“Não os conseguimos deter”.
B - “Poderiam ser gémeos. Falta um, desvanece-se o outro”.
A – “Bem visto”.
B - “Há quem diga ter ouvido de conhecidos, que conhecidos seus conseguem a interrupção do pensar. Nas minhas relações não tenho relatos disso, e desconfio”.
A - “Esses testemunhos são gabarolices de ambiente social. Num jantar tudo se diz para atrair atenções”.
B -“voltando ao tema, a apneia para mim é um tema sem discussão: malabarismos de circo. Treina-se e há artistas bons.”
A – “sim, isso são truques. Agora, fechar a torneira da fonte dos pensamentos!”.
B - “Atingir o vazio da impermanência como dizem os simpáticos budistas, é uma impossibilidade humana”.
A - “Estou em crer que sim. Os que conheci, praticantes das técnicas da concentração no respirar, no estado meditativo pareciam contentes, daí a estarem no reino do nada, como o podemos saber? ”
B - “Já pensaste no número infinito de pensamentos que temos numa vida?
A - “Fico zonzo de pensar nisso”.
B -“Nunca os conseguiríamos contar e o mais intrigante, li algures, é que quase todos têm um sabor triste”
A - “Desconhecia que os pensamentos tinham sabor e muito menos que eram tristes? Não estás a ser pessimista?”
A - “Eu tenho pensamentos de grande prazer”
B - “Isso é o “gosto de boca” que fica depois de serem pensados”
A – “Há mesmo pensamentos que fazem frases belas. Já construí algumas”
B – “Pois há. Mas esses são como foguetes, escapam-se num apagar de vela.
B - Os poetas são os grandes caçadores dos pensamentos belos, mas são escassos os poetas”
A – “É, os poetas são os especialistas dos pensamentos”
B - “Os pensamentos não têm consciência nem vida própria, nem a noção do que valem. Vivem, quando lhes prestamos atenção, porque senão eram um bando macambúzio de mortos-vivos”.
A – “E pelo que me dizes são dados à melancolia”
B -“Só é feliz quem se realiza. Sabes de algum que se tenha realizado, tal como foi pensado?”
A -“Não estou a perceber”
B -“Sim, a concretização integral de um pensamento, pelo pensador, seguindo à risca o manual de instruções? Materializar uma amálgama de abstracto, com todos os pormenores, sem sobrarem parafusos, fazer a construção e os acabamentos, sem peças a mais no final?”
A - “ Consta que os artistas e dizem que também os matemáticos, estão próximos disso.”
B - “São os que estão mais perto da fronteira do conhecimento, mesmo assim, têm bastantes crises de frustração.”
A - “Estou de acordo. Há mais melancolia nos artistas que sorrisos rasgados.”
B - “ A verdade - se se pode dizer assim – é que mesmo estando mais próximos da descoberta dos códigos das abstrações, pouco mais produzem que dois ou três pensamentos decentes ao longo das suas vidas.
B – “e acredita, eles são reconhecidos como os melhores fabricantes de pensamentos!”
A - “E nós? Não chegamos lá?”
B - “Nós, é como respirar: é um automatismo, não acrescentamos pitada de vontade na gestão do sopro, e é por isso que não te lembras de um sopro - inspiração-expiração -, que te tenha levado aos píncaros do universo. No entanto são fundamentais à vida.”
A – “fiquei baralhado”
B - “Com os pensamentos é o mesmo: encavalitam-se cá dentro, são catapultados pelas teclas da máquina de teclar pensamentos, a tua cabeça faz o trabalho, mas não dás opinião prévia.”
A – “ E depois, quando se libertam de nós, têm vidas dissolutas, sempre nos limites, nos excessos”
B - “Voltando ao sopro, e insistindo, não te lembras de num em especial pois não?”
A - “Se há coisas em que não penso é no respirar e apesar de me manter vivo, não posso dizer que pense nisso com frequência, nem com um prazer especial”.
B - “Pois, se há coisas em que não pensas tu e eu – que somos nós - e os outros, é no pensar. Como disse, pensar e respirar têm a mesma natureza”.
A - “Sendo assim porque pensamos, se não somos capazes de pensar bem, mas pelo contrário respiramos competentemente?”
B - “Pensamos porque a nossa cabeça é uma máquina de costurar pensamentos. Executa a função por obrigação biológica. Tivesse sido inventada para não pensar e seria devastador para os que desfrutam da sua companhia, e o corpo só fazia asneiras”
A - “O vazio é a não matéria mais enfadonha que existe.” 
B - “Para não complicarmos a conversa, nem vou convidar Deus para este monólogo, que é um pensamento soberano – a jorros na minha cabeça – a que tento dar a mesma importância dos outros.”
A - “Porquê, não o respeitas?”
B - “Não desrespeito ninguém, mas entranhou-se-me de pequeno uma história do pecado e agora, quando me lembro dele, inibe o meu projecto de liberdade”. 
A -“Como foste tu a chamá-lo para a conversa, se negas deus, como podes viver?”
B -“Abro mais portas do que fecho, mas tenho cuidado em não falar sobre o que não sou capaz de nomear”
B - “E estamos a desviar-nos do assunto que é sobre a estranheza da máquina que fabrica os pensamentos. Deixemos as utopias de lado. O inatingível é um tema demasiado sério” 
A - “Calculava que não irias responder. Desculpa, de repente julguei que não se podia falar de pensamento sem convidar deus.”
B - “Podes fazê-lo, mas vais ouvir o silêncio. Isto é uma conversa de homens e assim deve continuar”.
A - “Aceito a tua posição, acabaríamos por desentendermo-nos”.
B -“É que sendo impotentes para atestar o depósito da felicidade - ele está quase sempre na reserva -procuramos consolo em delírios”.
B -“E quem fabrica as utopias, perguntas tu?”
A -“A máquina de teclar os pensamentos?”
B - “É essa a diferença fundamental que nos distingue dos outros seres: o sonho”.
A - “O sonho? Saltas de Deus para o sonho e quase não me deixas respirar.”
B - “Sim, eles são igualmente pensamentos, mas de sintonia fina.”
A -“Com essa fiquei “knock—out”: sintonia fina?”
B - “Sim, são a flor de sal dos pensamentos, a música das esferas, a epopeia heróica que os homens imaginam realizar”.
A - “Raramente os entendo – têm narrativas extravagantes -, mas posso afirmar que gosto mais dos sonhos do que da maioria dos pensamentos em acordado.”
B - “Não te admires, eles são muito mais reais que os outros, apesar de excêntricos. São apuramentos dessa máquina catapulta, ou lá como se chama!”
A - “Voltando aos pensamentos. Disseste que no tempo da nossa vida não temos mais do que um ou dois jeitosos. Isso não é constrangedor? O que andamos a fazer: respiramos para nos mantermos vivos – sem outro benefício – e pensamos mal, quando é a actividade mais importante o que nos distingue dos outros”
B - “Não andamos a fazer nada de interessante. A existência é um jogo de perspectivas, projectadas em espelhos que deformam a realidade.”
B - Pensamos, porque temos na porção final e mais elevada do nosso corpo uma máquina histérica de teclar pensamentos.”
A – “É pena, que seja assim”
B - “E quando as teclas param e deixa de funcionar, entramos na fase mais misteriosa da vida, e também das que mais medos traz: a eternidade ausente de pensamentos.”
A - “Essa temporada eterna parece-me uma proposta decente. O sossego, sem mais preocupações..” Beber o âmbar do esquecimento definitivo de tanto contratempo passado
B - “Pois é, mas se perguntares ao mais culto ou ao mais rijo como o mais rijo e denso dos calhaus, dir-te-ão o mesmo: a eternidade sem pensamentos é a morte. E mal ou bem, todos temos a esperança inconfessada que a foice se esqueça de nós pela imortalidade fora”.
A - “ viver a imortalidade deve ser um tédio”
B – “Pois eu, mesmo com pensamentos chuvosos, prefiro-me vivo a passar o tempo nu da cabeça.”
B - “Ninguém quer passar a eternidade esticado numa nuvem entretido no ócio do nada: o tédio dos tédios”.
A - “Tens razão, apesar de tudo a existência de um pensador é muito mais simpática, do que a sisudez do buraco-negro eterno.”
B - “Isso é metafísica, ou depressão, não me dou bem com nenhuma, por junto ou separado.”
B - “a minha opinião definitiva para arrumarmos o assunto, os pensamentos, mesmo enfadonhos, são a razão de sermos. Mesmo mancos e pernetas é que, como te cumpririas, se não pensasses?”
A - “É isso! seríamos amorfos – uma palavra que seca a boca. Como poderíamos justificar a nossa condição de sermos os únicos seres com uma máquina de escrever colada a nós?”.
A –“Ainda gostaria de saber se há, escondido nalgum reposteiro do nosso cérebro, um redactor principal para tanta escrita?”
B – “Não acredito em teorias da conspiração! É só uma máquina, com vida própria”
A – “Ou comandada por fios invisíveis!“

MINI BIO

Paulo Robalo nasceu em Lisboa em 1965, cidade onde vive e trabalha. Licenciado em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, mostrou o seu trabalho plástico de forma regular até meados dos anos 90's. Após esta altura, iniciou a sua formação e trajectória em Design Cénico Contemporâneo, numa fusão de pintura e instalação nesta forma integradora de criação artística. Leccionou o curso de Cenografia e Coordenou o curso de ofícios do espectáculo na escola Chapito durante mais de uma década. Desde 2007, foi colaborador e coordenou oficinas de Pintura de "Backdrop" na ACE, no Porto assim como orienta oficinas de Design Cénico Contemporâneo na escola Restart,colaborando também com a World academy. É docente da disciplina de Desenho na Escola artística Antonio Arroio em Lisboa. Criou em 2015 a associação cultural Passevite, conjuntamente com o pintor Mathieu Sodore e os designers Rui Lourenço e Daniel Nascimento.Neste espaço atelier /galeria ,desenvolve-se uma programação e reflexão artística anual, assim como projectos de desenho/pintura, residências artísticas e intervenções sob a forma de "site specific".

 

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