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DISAPPEARING ACT (2020) Impressões fotográficas em látex 20 x 29 cm (Ed. 3 + 1 P.A.) 
 

A série fotográfica DISAPPEARING ACT é um projeto em andamento que seguiu a performance da janela N.1 em março de 2020. Em resposta ao isolamento pandêmico e atraída pelo látex das luvas que de repente se tornaram um acessório recorrente na vida urbana, escolhi este material como elemento de composição. E mais tarde, durante o processo de trabalho, a borracha natural também foi eleita como meu suporte de impressão para esta obra, por sua afinidade com o toque, efemeridade e rebaixamento de cor. A escala de saída escolhida foi muito próxima de 1:1 em relação aos itens fotografados. 
 

Como uma membrana que isola a matéria, nossa percepção do tempo dentro dos espaços privados foi alterada, borrada durante o confinamento. Decidimos evitar o toque como forma de preservar a vida. Para estender o tempo. No ambiente urbano nos distanciamos da natureza. Compramos mantimentos por meio de uma tela de computador. Olhamos à distância os alimentos que nos nutrem. 

Esta série toma forma a partir de ações domésticas, manipulo elementos perecíveis que chegam à minha porta. Minha percepção de perecibilidade está latente até nas relações banais. Essa sensação de impedimento ao toque, de uma barreira física que torna tudo menos palpável e pouco nítido à vista, me interessa. A matéria viva transpira e sufoca sob o lençol de látex, as cores desbotam. Eu entrego minha interpretação contemporânea da natureza-morta nas artes. 

 

 

INSOMNIA - Série Fotográfica (2020) Impressões fotográficas C-Type (Ed. 3 + 1 P.A.)
61 x 91 cm / 24 x 36 in 

A série INSOMNIA surgiu durante a pandemia de 2020. Fotografada durante as noites que se tornaram cada vez mais longas em confinamento domiciliar. A iluminação pública penetra pela janela e pinta com cor as superfícies brancas do interior do apartamento. 

À medida em que o olho se acostuma com a escuridão, é possível registrar variações de tom e temperatura de cor que antes passavam despercebidas. Agora eu percebo três tipos diferentes de lâmpadas do lado de fora da minha janela. 

Num movimento contrário ao do dia em que olhamos para fora; à noite, fragmentos do mundo exterior são registrados dentro do espaço doméstico. Vejo-os como paisagens diluídas. A luz compõe abstrações poéticas embaladas por um estado letárgico que me acompanha nas horas mais sombrias. 

A eterna vigília de quem não dorme nina as sombras e desafia a consciência num longo silêncio. É difícil dizer se os olhos estão abertos ou fechados. Eu habito aqui um lugar entre o sono e o sonho. 

(Inspirado nos romances Sleep de Haruki Murakami e The Machine Stops de E.M. Forster) 

Patricia Borges 

 

 

MINI BIO

Minhas obras falam de um estado interno, um barulho interior, enquanto o silêncio se apresenta ao mundo exterior. Elas sussurram os absurdos da realidade desta era paradoxal e ambígua. Me interessa a noção de transitoriedade. A incompletude e a incerteza. Através de mecanismos de congelamento temporal tento habitar um espaço intervalar entre o dentro e o fora, em dobras, fragmentos e justaposições onde nem tudo se apresenta. 

A obra nasce como fotografia para então colocar o gênero em xeque. A imagem ora ganha um corpo-objeto com direito/avesso, ora se instala no espaço, ganha movimento, sequências; ou perde a estabilidade que encontrava no universo físico ao transformar-se em bits ou palavras. Me interessa cada vez mais produzir imagens impermanentes que sofrem alterações ao longo do tempo, que tornam-se outra coisa. Fisicamente, o mesmo espectro UV que envelhece os materiais que fotografei continuará a atuar sobre a obra de arte enquanto objeto. Assim como há distância entre a aparência externa e o sentimento interior, o espaço físico em que a obra se insere não encontra correspondência no universo de sua imagem digitalizada. Mais uma vez, algo novo é criado.