Patrícia CHAVES

SOBRE O TRABALHO

A infância costuma ser idealizada pelos adultos, que têm suas próprias memórias construídas. Não é incomum escutar que “é preciso proteger as crianças; as crianças são puras e boas...” Há teorias psicanalíticas que defendem que a sexualidade infantil é um fato, mesmo que distinta daquela dos adultos. Sem mencionar aquilo que outrora já foi classificado como perversidade. 

O assunto das pinturas de Patrícia Chaves é a infância, não uma qualquer, e sim aquela construída nas memórias dela. Diversas ações das personagens retratadas passam-se em meio a um ambiente que remete a quintal. 

“Mesmo possuindo n veis de vinculação a mem rias, as pinturas são idealizadas de formas diversas das que partem de experi ncias vivenciadas ou imaginadas; elas possuem a intenção de captar e expor algo que problematize a ingenuidade atrelada inf ncia. Neste sentido, todas são feitas „de mem ria‟, sem o uso de refer ncia fotográfica como recurso técnico”, diz a artista. 

Em alguns dos quadros, vemos plantas que fazem e fizeram parte dos lugares habitados por Patrícia. Nelas, as crianças “brincam” em meio ao verde, e em contato com a terra. 

“[...] temos realmente a impressão de que o sonhador que modela segue melhor os interesses do devaneio ntimo do que o sonhador que contempla” (Gaston Bachelard). 

Os jardins por ela retratados talvez sejam tanto das delícias terrenas quanto dos desgostos, entre paraíso e inferno. Para determinar – ainda que seja possível dizer que podemos ver insinuações de cunho sexual – seria preciso fazer um julgamento moral, do qual, aqui, eu me abstenho. 

De um modo geral, os saxônicos costumam ser empiristas, partem direto para o embate da matéria, metendo a mão na massa; enquanto os brasileiros – europeus do Sul – tendem a ser racionalistas. Patrícia faz parte do primeiro grupo, sua pintura se dá na tela: mesmo que ela saiba o que vai pintar, não sabe, de antemão, como. Assim, o desenho, usualmente associado ao esboço, se torna pintura. Os traços em carvão ora são feitos antes da entrada da tinta, ora foram desenhados por cima dela. Para Cézanne, o desenho puro é uma abstração: “A linha e o modelado não existem em absoluto. Não há diferença entre desenho e cor, uma vez que, na natureza, tudo está colorido.” Muitos dos pigmentos das tintas, originariamente, são minerais, com cores da terra. Em grande parte dos trabalhos desta exposição, as cores avermelhadas contrastam com as esverdeadas e se realçam simultaneamente. Cézanne dizia também que pintar é contrastar. Contudo, a argamassa da pintura de Patrícia é a memória. 

“Expressando-nos filosoficamente desde já, poder amos distinguir duas imaginaç es: uma imaginação que dá vida causa formal e uma imaginação que dá vida causa material; ou, mais brevemente, a imaginação formal e a imaginação material” (Gaston Bachelard). 

Não é o caso de entrar aqui na histórica comparação que confronta artes visuais com artes intelectuais, ou naquela que opôs a linha à cor na história da arte a partir do Renascimento. Cézanne diz que, à medida que pintamos, desenhamos, quanto mais a cor se harmoniza, mais a forma se precisa. Na contemporaneidade, pintar é desenhar e desenhar é pintar. O que importa é o acontecimento pictórico. 

“A linguagem poética, quando traduz imagens materiais, é um verdadeiro encantamento de energia” (Gaston Bachelard). 

Nas pinturas de Patrícia, há uma superficialidade com pouca perspectiva, seja geométrica ou atmosférica. São momentos de aparecimento/surgimento de imagens, que vão do esboço do desenho ao pictórico, e vice-versa. Deixar o quadro indeterminado é um procedimento cezanneano. A despeito da aparência de inacabadas de algumas telas, existe bastante elaboração. São gestos e pinceladas libidinais. 

A pintura não é o quadro, é a vida. As imagens pictóricas de Patrícia Chaves se expandem, indagam a respeito de suas presenças no mundo, questionam o mundo. O ar de incompletude não chega a determinar se os quadros afirmam ou questionam. A feitura costuma ser rápida, todavia isso não 

determina se devemos dedicar um tempo longo ou curto a eles. São quadros para olhar ou para escutar? 

“[...] vontade que sonha e que, ao sonhar, dá um futuro ação” (Gaston Bachelard) 

 

André Sheik, fevereiro 2018. 

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