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onde o osso não alcança . Breno Gama

curadoria Marina Cespe

A ficção de que um corpo se esgota é, talvez, um dos assuntos mais inesgotáveis dentro da prática artística. Breno Gama, em sua primeira exposição individual, desdobra o mito do corpo como unidade, trazendo a imagem - a sua própria - afetada pelo que existe de estrutura no mundo.

Se pensarmos no osso como a estrutura do corpo, onde o osso não alcança é o lugar onde o trabalho se esgarça, uma lacuna vulnerável, feita de pele, carne e buracos. Se deixando cair nesse lugar, as pinturas aqui presentes questionam as estruturas e funções pré-estabelecidas de uma sociedade que olha esse corpo que julga intangível. Ao usar de referência sua própria imagem - muitas vezes com aspectos voyeurísticos - o artista se coloca como ferramenta para entender como o seu volume no espaço é percebido pelo outro, pautando o corpo gordo e queer na contemporaneidade.             

Como parte do processo de criação de uma nova imagem, Breno tira fotos de si mesmo, as edita, faz sobreposições, distorce as imagens, as imprime e somente depois desse longo método, as traduz em pintura. Mas por que no final ela tem que acontecer? Um artista não precisa pintar o corpo para falar dele, eis a crise que permeia a técnica.

Francis Bacon, mestre da tradução de corpo em pintura, fantasiava a imagem do humano como uma peça disposta no açougue, como se quisesse desembaraçar a carne dos ossos e separá-la em fragmentos. E para isso ele tratava a massa corporal como tinta, o pictórico dessas imagens que ele via era tão presente que não restava alternativa a não ser pintar. O trabalho aqui disposto, se inspirando nisso, se interessa pela carnalidade vulnerável do corpo, que se torna mole quando os ossos se despedaçam do resto.

Existe aí um processo exaustivo de pensar a imagem e se livrar dela através do pictórico, como se os trabalhos desejassem assassinar o próprio ícone que representam, jogando-o em um lugar invertido. A imagem do corpo sofre metamorfose e ganha um estranho exoesqueleto, que protege sua cópia, agora interior. Ao colocarmos o osso para fora, pensamos no trabalho como um espelho, que reflete seu inverso.                                

Insisto em dizer que o corpo nessas pinturas é um corpo que tange o impossível, mas que nesse processo encharca-se de possibilidades. Além da representação de troncos, cabeças e mãos sobre telas e painéis de madeiras, surgem também abstrações escultóricas, buracos e janelas que funcionam como sugestões de escape desse eco persistente que é a identidade em fragmentos. É no espaço da exposição que a estrutura do osso - firme e branca como a galeria - contrasta com a vulnerabilidade da carne presente nos trabalhos.

O trabalho volumoso, ao mesmo tempo que esconde suas dobras nas pinceladas, clama a atenção de um outro estrutural, que o observa incansavelmente. Ao explorar o inverso do corpo, as pinturas e objetos nos convidam a questionar onde estão os corpos dissidentes e o que podem, em uma realidade onde o osso não alcança.

 

Marina Cespe

outubro de 2024

Coordenação Sara Figueiredo

RELEASE

 

A primeira exposição individual de Breno Gama acontece na Galeria EIXO RESERVA. “onde o osso não alcança” tem o intuito de pensar a produção mais recente do artista, que se desdobra a partir da construção da auto-imagem de um corpo tangível e intangível e afetado pela dissidência. Para a curadora, o lugar em que o trabalho de Breno se desenvolve e se esgarça é um fragmento cheio de peles, carnes e buracos, mas sem osso, dando notícias da própria estrutura da imagem e seu despedaçar.

 

A abertura acontece no dia 31 de outubro, das 18h às 21h.
A exposição ficará aberta para visitação até o dia 01 de dezembro.

 

Inauguração: dia 31 de outubro às 18h

Encerramento: dia 01 de dezembro às 19h

Visitação: Todos os dias 12h às 22h

 

Galeria EIXO RESERVA - Reserva Cultural Niterói

Av. Visconde do Rio Branco, 880

São Domingos - Niterói / RJ - Brasil

 

Estacionamento no local

Crianças somente acompanhadas pelos responsáveis

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