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MAURICIO DUARTE, Rio de Janeiro

(conteúdo retirado do portfólio do artista)

SOBRE A SÉRIE

Série Mônadas Urbanóides

A fronteira entre desenho e pintura na contemporaneidade se não deixou de existir, alargou-se muito desde os anos 1960 até aqui e até antes disso. O que não desvaloriza a pintura nem hipervaloriza o desenho. Ambos os gêneros continuam gozando de seus esplendores e esquecimentos. Na Série Mônadas Urbanóides as gravuras utilizam-se de nanquim, ecoline e tinta vermelha para desenho; às vezes, só nanquim ou nanquim em mistura com as duas outras tintas numa paleta reduzida em verde, próximo do cyan, vermelho vivo e preto sobre papel branco, na maioria das vezes. Só em Outras passagens utilizo o papel colorido para conferir um pouco de suavidade à Série. O desenho se utiliza da linha, preponderantemente, mas aliada a uma pintura pontual, o que não deixa de transparecer este pictográfico, apesar de o limitar, na maioria das vezes, a algumas áreas das obras, de uma forma geral.

A escolha dessa paleta e desse modus operandis tem relação com o meu desejo de me reportar diretamente ao aspecto gráfico do grafite, da pixação, da iconografia virtual, cinematográfica, quadrinhográfica e televisiva, ao mesmo tempo. Logicamente realizar uma síntese dessa monta não é tarefa fácilmente exequível do ponto de vista visual se considerarmos as diferentes formas, gêneros, linguagens, graus, níveis e patamares que a arte popular, o mass media, assume e avança e recua o tempo inteiro, indo de uma ponta a outra ao sabor das vagas marketeiras e econômico- financeiras e dos interesses especulativos dessas mesmas vagas.

A cidade, o meio urbano, é fundamentalmente o meu terreno nessa Série. O gráfico desde Tolouse Lautrec, até hoje, nos brinda com a sua presença incessantemente, desde os outdoors até os ícones minúsculos no smartphone, tablet e celular. Macro e micro, a cidade, a metrópole nos engole e nos vomita o tempo inteiro, num balé binário de 1 e 0, de vai e vem, um ato sexual que não tem fim. Como compreender essa complexidade, como no dizer de Edgar Morin? Como estabelecer essa volatividade numa imagem? A Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman nos mostra o que de miserável e rico – ao mesmo tempo – ocorre na nossa contemporaneidade.

Consubstanciar essa mixórdia de elementos que se confundem e se mesclam é o meu marco de ponto de partida, sendo o ponto de chegada o aprofundamento desta estética que se vale do mínimo (nanquim s/ papel) para alcançar o máximo (complexidade).

A apreciação do expressionismo abstrato, da anti-arte, do tachismo, da pop art, do minimalismo, da arte conceitual, do hard-edge, dentre outros movimentos, me fizeram o artista que eu sou hoje. Não seria honesto dizer que nenhum deles me moldou, todos me moldaram. O que eu fiz desse “molde” é que é autenticidade do meu trabalho, parafraseando Jean-Paul Sartre.

Minhas séries anteriores, Caminhos e Brutais Sutilezas, – ambas presentes nas exposições EIXO 2018 e 2019 – prepararam terreno para a incursão nessa problemática puramente urbana, no que ela tem de mais sutil e transcendental (relativo ao conceito de Mônada no seu aspecto espiritual, gnóstico) até o mais miserável e sujo, depreciativamente urbanóide.

A simplicidade, a singularidade e a irredutibilidade da Mônada enquanto Ser Espiritual Supremo, segundo a Gnose, sofrem influência da volúpia, da instantaneidade e do virtual das grandes cidades no meu trabalho artístico, realizando uma síntese de momentos chave do zeitgeist.

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