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LET COTRIM, Rio de Janeiro

Fotografia

SOBRE OS TRABALHOS

SOBRE A SÉRIE ILHAS:

“Nenhum homem é uma ilha... todo homem é um pedaço de um continente...”. A partir desta frase de uma das meditações de um poeta inglês elisabetano1, podemos nos perguntar se até mesmo as ilhas seriam realmente “ilhas”.
Nós, humanos, somos indivíduos mas temos uma história que nos liga a outras pessoas, queiramos ou não. Somos indivíduos, mas temos uma voz que é ouvida por outras pessoas (às vezes não). Somos indivíduos dotados de consciência, e através dela percebemos o mundo e as outras pessoas à nossa volta (às vezes não).

As ilhas estão circundadas de água por todos os lados, como lemos nas definições dos livros de geografia. Mas as ilhas estão conectadas umas às outras pelo fio invisível do voo dos pássaros, que pousam aqui e ali para se repousar. As ilhas não flutuam a esmo no oceano, elas são parte dele. Mesmo as ilhas-vulcão, algumas mais efêmeras que as outras, são parte dele. As ilhas estão circundadas de água por todos os lados, e por isso mesmo estão conectadas por ela. A água que as circunda não isola. A água que circunda as ilhas isola os humanos, porque ainda precisamos de jangadas ou veleiros ou navios ou pontes se quisermos chegar numa ilha. A água que as circunda ajuda a criar o mistério do que encontraremos, como se fossemos capazes de encontrar aquilo que procuramos durante tantos anos e nunca conseguimos alcançamos. Um tesouro, promessa de repouso, ou um esconderijo numa tentativa de realmente nos transformarmos em uma ilha.

Nesta série de fotografias espero ir além da apreciação da paisagem (todos deveriam, pelo menos uma vez na vida, chegar no Rio de Janeiro pelo mar), numa tentativa de refletir sobre como as definições até “científicas” podem ser relativizadas, se pararmos tomarmos outro ponto de vista.

As ilhas desta série foram fotografas no verão de 2020, pré-pandemia, durante uma viagem de navio entre o litoral de São Paulo e o Rio de Janeiro.

MINI BIO

Let Cotrim nasceu em Brasília em 1972, e ama tanto o mar que se dedica à pesquisa em Oceanografia no Rio de Janeiro. Fotografa sempre que pode desde a infância, cercada por inúmeras fotos de família. Autodidata, decidiu aceitar o desassossego e a insônia da criação para misturar arte com ciência, realidade e sonho.

O olhar inicial, puramente documental, com o passar do anos passou a registrar também detalhes e formas do cotidiano, mas sem deixar de lado as paisagens.

Aprecia o trabalho de Ernst Haeckel e Karl Blossfeldt, acadêmicos-artistas. Atualmente fotografa para criar imagens abstratas e evocar questões ambientais.

Declaração da artista

Minha cabeça é científica, e gosto da ideia de representar o cotidiano em planos e gráficos. A mania d observar o mundo também despertou o sentido de impermanência. O tempo como dimensão das coisas e da vida não cabe em um simples pedaço papel, assim como a dimensão de beleza.

A fotografia une os pontos deste gráfico inacabado: captura um momento que ficaria perdido no eixo do tempo, e imprime e transforma o que foi observado, grande, pequeno, repetido, colorido, monocromático, o perdido no horizonte no meio do oceano.

Essa compreensão acalma meus espíritos e ajuda a tirar as etiquetas impostas sobre o que é ou deveria ser bonita ou interessante. Liberta a criação. Traduz linguagens, que podem ser simultaneamente muito pessoais e muito universais.

Observação da organização:

Os trabalhos expostos na exposição virtual, podem sofrer alterações de tamanho para não ficarem prejudicados a visualização pela web.