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DESOBJETOS 

 

Todo meu trabalho é atravessado pelo conceito de “desimportância”. Conceito esse que abrange, não só a “não importância” de algo, mas também todo processo de descarte que damos para qualquer coisa que não tenha mais ‘vida’, ‘utilidade’ ou ‘função’ e que não esteja em um lugar de projeção. sendo assim, também me interessa o que está no campo do ‘mínimo’. 

Na serie "desobjetos", as memórias impregnadas em fragmentos e cacos perdidos de objetos do cotidiano me conduzem a uma montagem do quebra cabeça das minhas próprias memórias. Num jogo metafórico sua inutilidade prática agora se torna utilidade simbólica. O caco evoca a perda do todo, revela a cicatriz desta perda e ascende o medo da ferida. O caco “desútil”, como diria Manoel de Barros, se ocupa agora em recompor quebra cabeças memoriais.
O objeto/corpo, que se rompeu em caos, que avariou, que perdeu a utilidade ontológica, renasce através de rearranjos provocativos e não menos caóticos, transfigurando-se para alem da sua natureza útil, descritível, factual, deslocando sua identidade para a de um desobjeto autentico: aquele que perverte a si e ao outro que olha deixando latente o devir que acompanha cada coisa/ser. 

O que mora dentro do “aparente” fim?
O processo desta série é um grande quebra cabeças , é vida bruta. É a parte e o todo, é o encontro entre poeira e ouro 

 

 

MINI BIO

Mesmo estudando Comunicação Social até meados de 1991, foi na aventura da imersão em um laboratório e em cursos livres que descobri a fotografia. Desenvolvi trabalhos essencialmente no âmbito das artes cénicas, espectáculos e na fotografia documental.
Em 2016 após uma ruptura com a fotografia convencional e um período de questionamentos do próprio fazer fotográfico, passo a me dedicar integralmente à fotografia de autor. Pesquiso especialmente os temas das desimportâncias do mundo, os meus e a beleza que o esquecido e seu acaso evocam.
O que cada pessoa fará com estes achados é um mistério e um estímulo.
Busco continuamente os cacos e as vulnerabilidades que nascem das percepções que faço das minhas memórias pessoais, do desejos, bem como dos que me rodeiam, costuro-os e remonto-os na busca de reencontrar seus siginificados ou simplismente para poder contemplá-los de novo. 

Enquanto o mundo sufoca as insignificâncias eu as liberto. Neste percurso onde recuperar é,
ao mesmo tempo, adornar e costurar e também apagar e recobrir, nascem criaturas, retratos, perguntas. 

No meu quebra cabeça eu sou a peça que falta. 

Fragmentos se perdem, eu os encontro. O tempo escapa, eu o respiro. Uma fenda se abre, eu mergulho.