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DENI CORSINO, Porto Alegre

Fotoperformance

  

Faixacorpo relaciona as questões do espaço urbano e a atitude de performance no intuito de levantar um olhar crítico para a cidade contemporânea feita de prédios e grandes avenidas para carros e que não abre espaço para a permanência do sujeito. Ao deslocar-me com a minha própria faixa de segurança dou-me a possibilidade de escolher o meu trajeto, de permanecer, habitar, estar presente e ocupar o espaço urbano.

 

 

SOBRE

Não há outra faixa de segurança móvel senão a minha que atende à flexibilidade das escolhas que faço. Uma vez instalada torna-se spot passível de construções tão maleáveis quanto sua estrutura. Qualquer gesto partido de mim encontra uma área de dois metros de largura por sete metros e meio de comprimento para habitar. Negro é o asfalto e negra é a faixa feita de carpete com fina espessura e macia o suficiente para deixar-se enrolar com facilidade quando meu corpo assim decidir. Eis o meu estado de permanência.

Realizo deslocamentos curtos e lentos que não se limitam a atravessá-la, mas a perceber cada uma de suas listras como um território que me possibilita criar ‘áreas pessoais’ a partir de regras decididas por mim e que criam o meu sistema subjetivo de permanência. Mover, porém até o limite da faixa. O limite dado pela borda. A borda que circunscreve poder e transborda internamente de meias escolhas. Mantenho o contato faixa-corpo de maneira que o estar com ela, sobre ela, dentro dela divide-se no permanecer e distanciar. Este ato cumpre uma distância no olhar e uma distância até um ponto de

referência que pode ser qualquer um entre meu corpo, a faixa e a cidade. Um gesto ‘natural’, aquele já incorporado por mim e adestrado pela cidade das perimetrais planejada para manter movimentos: não pare, volte, gire, atravesse, pare, siga, obedeça, esteja protegido, veja os limites, imagine o invisível, não veja o outro lado, divida espaço com o outro, com o transporte. – Olhe, você está sendo guiado e limitado. Amarrada nas linhas invisíveis da estrutura controladora das cidades torno-me o ‘corpo dócil’. 

 

A Videoarte Faixacorpo foi criada a partir de uma performance pública, que leva o mesmo nome, a qual discute minha interação com os objetos e o espaço urbano fazendo referência à noção de corpo dócil de Foucault. Através do eu–performer em relação ao espaço e ao objeto “faixa”, busco despertar percepções no outro sujeito que não assiste, mas tem participação na ação. Ao realizar uma crítica às imposições do cotidiano levanto uma reflexão através da ato performativo que será lido (entendido ou não) pelo outro. No momento em que me aproprio de determinado espaço, o mesmo não deixa de ser público. O sujeito urbano é impelido a determinadas áreas seguindo uma tática de construção de corpos localizados, individualizados, de forma que a repartição de indivíduos seja uma estratégia de manejar a população e manter a ordem. Enquanto contida dentro da faixa individual, minha circulação se expande e me permite efemeramente estar, vivenciando as operações do corpo dubiamente úteis dentro do espaço individual que crio e controlo. A sujeição à disciplina cria relação de “docilidade-utilidade” a qual contraponho com certa ociosidade e inutilidade. Uma experiência de autoridade do sujeito na cidade contemporânea.  *Trecho de texto originalmente publicado no Brasil em 2018.

 

 

 

“Encaixamentos ”

 

Sobre a obra:

Em Encaixamentos utilizo-me de algumas operações não usadas em Faixa-corpo pois trabalho com ações realizadas para câmera, ou seja, fotoperformances. Em Faixa-corpo, enquanto ação, podemos falar de presença física com “consciência do instante único de quando estamos realizando uma performance ao vivo” (TEDESCO, 2015) em um espaço permeado por outros sujeitos. Já Encaixamentos se abre a uma outra perspectiva de presença do corpo aonde estou diante da câmera e esta intermedia a minha presença na ação.

Nesta proposição conto com o objeto mediador placa vermelha que conecta-me a elementos presentes na cidade. A prática corpóreo-espaço-temporal se dá em local previamente eleito, durante curto espaço de tempo, dispensa audiência e conta com o auxílio de um assistente que realiza o disparo; um que direciona o corpo e, um que faz a segurança. Conforme afirma Regina Melim (2008) a fotografia é um “documento primário da Performance” pois esta “só é acessível ao público a partir de sua documentação”, ou seja, “através da sua documentação que a Performance existe como Performance.” Além disso, a autora argumenta que o “performativo provém do verbo to perform, que como sabemos significa realizar, fazer, executar. O que por si só já permite o seu uso para indicar o caráter específico do modo de ser/fazer artístico”.

A placa vermelha foi construída com placa de plástico vinil (PS) de 5mm estruturada em madeira, pintada com tinta esmalte e desenhada especialmente para encaixar, de um lado o meu corpo e do outro, os postes múltiplos da Avenida Carlos Gomes, em Porto Alegre, que foram identificados durante as três visitas ao local. Desloquei-me duas vezes para ensaios performáticos que incluíam testar figurino, ângulos, sequências e possibilidades que pudessem surgir a partir da experimentação. Três figurinos foram provados até que se pudesse chegar à proposta final. Horários diferentes foram sondados no intuito de encontrar a melhor luz solar para a  proposição. No decorrer da elaboração de Encaixamentos houve uma preocupação com o resultado a ser apresentado exigindo construção da cena, o que revela um processo de criação mais longo do que na ação Faixa-corpo, mas que utiliza-se do mesmo começo. Esta produção traz em si a performance mise en scene ,  ou seja, uma fotoperformance feita para a câmera, encenada.

Na fotoperformance Encaixamentos crio enquadramentos ou propriamente encaixes a partir de objetos que apoiam meu corpo e mediam minha interação com o espaço das perimetrais. O encaixe realizado carrega a ideia de personalização do espaço urbano, do corpo e do objeto dentro da proposição de arte. Como se para cada corpo houvesse uma cidade. Um encaixe sob medida, feito para tal corpo e elemento da cidade. Os encaixes pressupõem peças diferentes, mas com algo em comum – uma superfície de contato. De um lado, o corpo e, do outro, o poste e, ambos, em contato com o chão da cidade partilhando o mesmo espaço urbano. É incorporar a cidade, unir-me a ela, ser uma continuidade dela e vice-versa. Corpo e placa como elementos que compõem os diversos layers (camadas) da urbe. Uma vez realizadas as escolhas durante o processo de criação, este começa a demonstrar novamente as limitações impostas pela ocasião. Definida uma determinada posição, o meu corpo limita-se à inércia parcial em seu lado esquerdo - aquele em contato com a placa, enquanto meu lado direito encontra espaço para gestos que dão movimento à cena. As linhas do meu corpo e da placa vermelha, que encontram-se em um mesmo plano, jogam com as linhas dos elementos urbanos, cruzando-se com a verticalidade das avenidas perimetrais, a perspectiva da imagem e a horizontalidade da conexão corpo-objeto mediador-cidade.

 

 

Sobre o Artista Mini Bio

 

DeniCorsino, ARTISTA VISUAL (Porto Alegre, 1981)

A sua produção poética carrega consigo o aspecto da multidisciplinaridade explorando as relações entre corpo e espaço urbano. O processo criativo, o qual tem grande relevância no desenvolvimento de cada obra multimídia, propõe transversalidade, reflete uma artista inscansável na busca de contínua transformação e aborda as questões do quotidiano das cidades no intuito de criar e re-criar a arte contemporânea. A presença do artista como um agente de transformação, interação e/ou observador modificado pelas experiências vividas no/com o espaço e os objetos circunstantes tem sido um argumento recorrente na sua produção.

Atualmente colabora con dois coletivos de artistas e desenvolve projetos educativos para museus de arte contemporânea. Por 3 anos integrou o coletivo multidisciplinar OM-LAB coordenado pela artista Tete Barachini, havendo desenvolvido o Projeto de Pesquisa Objeto Tridimensional: Transversalidades e Compartilhamentos [Brasil 2015/2018].

DeniCorsino vive em Milão, na Itália, é especializada em Projetos Educacionais em Artes Visuais  [Master Universidade Católica do Sacro Cuore, Itália, 2020] e graduada em Artes Visuais [UFRGS, Brasil, 2018]. Tem sido treinada em instituições renomadas com estudos em Design da Comunicação Visual [Politécnico di Milano, Itália], Publiciadade & Marketing [ESPM-Sul, Brazil], Arquitetura & Urbanismo [PUCRS, Brasil], Paisagismo [Criart, Brasil], English ESL [Beverly Hills Public School, USA]

e Língua Italiana [Acirs, Brasil]. Sua produção artística tem alcance internacional com trabalhos apresentados no Brasil, Itália, Paraguay, Alemanha, Koreia do Sul, Inglaterra e Polônia.

Mini Biografia:

Desde pequena desenho. Minha paixão pela arte; o fazer; o criar surgiu muito cedo na minha vida e nunca mais me largou. Sempre quis fazer isso. Comecei trabalhando com moda e decoração, profissões onde eu podia exercer minha imaginação e criatividade. Comecei a frequentar o Parque Lage, onde fiz vários cursos e descobri novas possibilidades. Desde então venho praticando meu fazer artístico. Uso como referência para desenvolver meu trabalho formas da natureza ; raízes, troncos, galhos retorcidos, sombras e paisagens que atraem meu olhar. É um olhar que vaga; que vê e que transforma aquilo que captura. Essa transformação se dá por meio de interferências com gestos, colagens, recortes sobre a superfície do desenho/pintura/impressão, num processo de soma e abstração. O resultado são paisagens/figuras abstratas, paisagens que habitam meu imaginário.

(Texto extraído do portfólio da artista)

 

Observação da organização:

Os trabalhos expostos na exposição virtual, podem sofrer alterações de tamanho para não ficarem prejudicados a visualização pela web.