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CORINA ISHIKURA, São Paulo

(conteúdo retirado do portfólio da artista)

 

MINI BIO

Corina Ishikura é artista e pesquisadora. Sua produção discute a relação do ser humano com o universo, sua impermanência, atuando na essência do abstrato. A partir de e através da pintura, colagem, desenhos e outros materiais, suas obras buscam a expressão do pensamento que vai além da forma abstrata por si mesma, reflete e se comunica sobre gestos humanos perante a vida, sobre a dimensão do que é mutável, inconstante e imprevisível.

Suas pesquisas partem de coisas do mundo onde o assunto, pautado na relação do tempo e espaço, remete a átomos, a unidade energética da existência, a essência, ao espaço entre, onde todos os elementos se exibem, inter-relacionam, expressam o estado da impermanência. Nesse aspecto seus estudos, tem como base elementos, segundo a filosofia budista, que significam o corpo, sensações, percepções, formações mentais e consciência, que estão sempre a expressar o estado de fluidez no mesmo instante em que são vazios, que não podem existir sozinhos, por si mesmo. A coexistência, seguindo esse pensamento, só é possível no estado de interser com todos os demais, na existência e sua transitoriedade.

Bacharel e Licenciada em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1987), Corina Ishikura cursou Pintura com artista Elias Muradi em Gare Cultural, antiga Abra, Escola de Arte e Design, SP (2013~2016) e fez acompanhamento de pintura com pintor Kazuo Wakabayashi (2017~2019). Realizou diversos cursos complementares entre os quais destacam-se Filosofia, Clóvis de Barros Filho em Casa do Saber (2011~2012); Washi-ê, processo de colagem, papéis artesanais japoneses, com Luiza Okubo, Fundação Japão SP (2013~2015); Arte Contemporânea e Memória com Ana Pato, FAAP SP; Expografia: Uma Introdução, Nilo de Almeida, Gare Cultural, SP (2016); Arte Contemporânea, Nilo de Almeida, Gare Cultural (2017);. Curso Creativity Masterclass, módulos I a IV com Charles Watson, Fundação Tomie Othake e MAM SP (2018); Arte Japonesa em Contextos, com Madalena Hashimoto Cordaro e Michiko Okano, USP (2019); História da Arte, Rodrigo Naves (2020).

Corina Ishikura é artista e pesquisadora. Sua produção discute a relação do ser humano com o universo, sua impermanência, atuando na essência do abstrato. A partir de e através da pintura, colagem, desenhos e outros materiais, seu processo parte de formas e elementos do cotidiano ou de pesquisas filosóficas, busca a expressão do pensamento que vai além da forma abstrata por si mesma, reflete e se comunica sobre gestos humanos perante a vida, sobre a dimensão do que é mutável, inconstante e imprevisível

Texto crítico

Corina Ishikura

As pinturas de Corina Ishikura expressam-se para além da matéria. As cores vibram nas direções fronteiriças da tela e com essa expansão dos limites manifesta um aspecto invisível, simbólico, energético. É possível avistar - ou sentir - as pinceladas que transpassam a dimensão da pintura e se instauram em um horizonte imaterial, espiritual. Sua obra é como “algo que voa”, que comunica um ato de liberdade. Por esse aspecto suave e peculiar, indica ser parte de algo maior. Por um lado, por sua semelhança com visões microscópicas de moléculas ou visões macroscópicas de mapas topográficos - fragmentos ou recortes de um todo. Também no sentido de expressar um pensamento que vai adiante da forma abstrata por si mesma, reflete sobre os gestos humanos perante a vida.

Essa flexibilidade na sutileza dos tons e traços conecta-se com o conceito japonês Ma, que pode ser compreendido como o vazio, o espaço de imaginação e potência onde tudo pode acontecer. Estado de fluidez onde os fenômenos aparecem e desaparecem, onde todas as coisas se interconectam. Para chegar a um lugar, a obra de Corina formula um não-lugar, trata do que não existe, da matéria geradora de vida. Não preenche o vazio, mas permite que ele expresse sua potência. As formas circulares, preenchidas ou vazias, aparecem com frequência em suas pinturas e expressam o movimento contínuo, sem fim. São os átomos, a unidade energética da existência, a essência. Círculos revelados por gestos escavatórios que a artista emprega em sua obra, descobrindo o que tem por trás da pintura, alcançando um passado irreconstituível. Expressa, então, uma escala de tempo geológico na qual os acontecimentos se sobrepõem, se comunicam com a dimensão da vida humana que é mutável, inconstante e imprevisível. O movimento circular expressa também o hábito da artista de retornar às telas finalizadas para modificá-las. Este ato de retomada revela uma vontade própria da obra de não chegar a um ponto final, mas expressar a impermanência e permitir que o mistério mude de lugar. Mistério este que, como o do existir, é motor para a vida, e não pode ser totalmente desvelado no processo criativo. Inevitavelmente tais pinturas remetem à filosofia do wabi-sabi e à estética japonesa do tsubo-niwa. O wabi-sabi em sua aceitação da impermanência, na expressão dos movimentos fluidos que não buscam a completude e nem um aspecto, uma forma que possa ser dada como finalizada, mas o processo em desenvolvimento, os acontecimentos ao longo. O tsubo-niwa, que reúne os principais elementos da natureza em uma constituição minimalista e harmônica. Do mesmo modo, algumas pinturas em azul e ocre remetem ao lago japonês e ao reflexo das folhas das árvores sobre a água, constituindo assim paisagens de travessia, em uma versão tátil, texturizada e abstrata das cenas do artista Hokusai.

Parar diante dessas obras é como observar o fluxo de um rio, a quietude da montanha, entrar em estado de meditação sobre os movimentos do mundo que estão afora do ser e que podem se integrar com a interioridade humana. As telas parecem querer comunicar algo que diz respeito à própria condição de existir, partindo da escala humana, conectando-se com as mínimas formas e indo até as grandiosas, àquelas que não podem, sequer precisam ser explicadas pela razão porque são explicitadas na dimensão dos sentidos. A característica intangível que se mantém na obra revela sua verdade, uma vez que a arte de Corina adentra justamente o campo intangível da própria existência.

Por Anais-karenin 2019

Texto crítico

Corina Ishikura

Existe a possibilidade de escrevermos uma história de arte a partir das biografias dos artistas, Giorgio Vasari em seu “Vidas dos artistas” num certo sentido fez isto, Ernest Hauser denuncia a estratégia no próprio título da sua “História Social da Literatura e das Artes”, G.C. Argan também, esta história de arte terá um caráter eminentemente sociológico que em maior ou menor grau vai refutar (exceção feita a Vassari) a noção do artista enquanto gênio ungido de habilidades excepcionalmente adquiridas ou divinamente conferidas. A teórica inglesa Janet Wolff no livro “A produção social da arte” é enfática na contestação da ideia do artista como gênio já que para ela para outros que partilham da mesma convicção arte é, sobretudo trabalho e trabalho determinado por circunstancias especificas e objetivas. Como sabemos existe um contingente de teóricos que lastreiam as suas pesquisas nessa possibilidade, outra vertente é aquela que pauta suas analises no caráter eminentemente formal da obra sem privilegiar aspectos externos a ela contornando, sempre que possível tudo o que não for exclusivo e interno delas. Neste sentido, questionamos o quanto à mestiçagem dos artistas nascidos num país que nas suas mitologias e história também se quis (ou ainda se quer) mestiço pode influenciar na percepção que estes artistas têm da realidade que determina suas produções? Essa questão se insinua na leitura que faço do trabalho da Corina Ishikura e talvez ela faça algum sentido quando, a luz dos conhecimentos surgidos a partir das conquistas das mulheres e outras “maiorias minoradas”. O quanto esses trabalhos podem elucidar trajetórias sociais e não apenas individuais? Uma coisa que chama a atenção no trabalho dessa artista, em seu início de carreira, é o investimento laboral aplicado, o dispêndio de energia física e intelectual empregado na confecção e no artesanato de suas obras, isso, claro, nunca pode ser confundido de imediato com garantia de superioridade no resultado, ainda assim esse cuidado e o apuro são indicativos de uma sensibilidade disposta aos desafios inerentes a produções que não admitem atalhos para sua realização.

A grande diversidade de meios técnicos á disposição do artista também solicita dele uma sensibilidade atenta ao seu próprio projeto estético, assim a escolha desta ou daquela técnica representa também decisões de caráter mais afetivo que pura ou imediatamente formais, as narrativas contidas na obra serão entendidas inclusive á partir do material usado na execução do trabalho. A encaustica sendo uma técnica exigente supõe uma deliberação atilada de quem dela faz uso, pode resultar em pasta espessa e maciça ou em transparência veludosa e acetinada de cera translucida, há, portanto, um propósito que se não se apresenta epidermicamente, mas de modo subjacente, existe como imanência. A pintura da Corina Ishikura cria em superfícies grandes e pequenas muito mais do que espaços imantados pela cor, são atmosferas, atmosferas que traduzem seus esforços, atmosferas avessas à adjetivação, como se cada uma contivesse um pequeno sistema planetário em expansão que não deixam ver o big bang que lhes deu origem.

É curioso que a pintura que ela chama de “controversa” tem certa rigidez que me remete a pintura da “Nova Figuração” do “Pop” brasileiro dos anos 60 e 70, no conjunto das obras á que tive acesso essa pintura em particular aponta para uma direção que sugere, menos que um problema, novas possibilidades e interrogações prolificas.

Cladinei Roberto Projeto Casa Tato 1 2020

  

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