COLETIVO DUAS MARIAS

SOBRE O TRABALHO

Bienal Internacional de Curitiba 2015

“SE FOSSE VOCÊ...” (Performance/Instalação)

O coletivo Duas Marias com o conjunto “...se fosse você” aborda um único tema: a luz humana. Essa luz interior é elucidada de uma forma a enaltecer figuras marginalizadas, que por meio da arte, vêm romper as amarras socialmente impostas que por anos as têm inferiorizado.
Em Duas Marias a linguagem é interativa, já que será possibilitada à participação dos apreciadores junto à exposição, cujos se colocarão nos papéis dos incontáveis desafortunados que, de forma notória ou oculta, contribuíram com o processo histórico. As artistas desnudam de forma singular as mazelas humanas, a loucura, a desumanidade, a depressão, o abandono, o cárcere, a clausura, por meio de vestes que carregam consigo história e pesares. Porém, é importante salientar que os sofredores na obra revividos têm tal força superior, que mesmo diante de um contexto de insanidade e de dor, projetam divinamente sua luz ao mundo. As obras buscam a reflexão do público e da crítica em relação aos historicamente menosprezados e julgados, a “culpada” primeira mulher e os seres humanos esquecidos, os quais se farão vivos refletindo todo fulgor de suas significâncias.

Curador - Brugnera Texto - Cíntia Abreu

“SE FOSSE VOCÊ...”

A Exposição “Se fosse você...” é uma obra, altamente polifônica, que nos permite compreender os movimentos de confronto da sociedade do século XXI, que aprisiona a mulher em crenças, hábitos, convenções sociais e culturais. Os materiais: duras correntes que agrilhoam à mulher a papeis femininos, as quais ela arrasta consigo no seu desejo de libertar-se. As coleiras, com que a mulher é atada, remetem às imposições culturais de uma sociedade cada vez mais impiedosa. Entretanto, os aprisionamentos sofrem uma ruptura. Numa cruz que representa o Cristo Crucificado, há uma mulher também crucificada, toda manchada de pintura. Rodeiam-na seus materiais de trabalho, aquele castigo dogmático que a obriga a carregar sua cruz: “ganharás o pão com o suor de teu rosto”, contudo, no seu rosto aparece uma enorme gargalhada. Estas mulheres do coletivo Duas Marias nos querem dizer alguma coisa. A loucura, a velhice, o preconceito, a dependência, o abandono, diferentes vozes femininas entram em confronto com as imposições sociais e culturais que se alastram historicamente sobre a mulher. Aqui entram vozes de dominação, vozes que reprimem, vozes que rejeitam, e vozes que libertam. Aqui entra a altura, o diapasão, o timbre, a categoria estética, o poético, o dramático. Aqui entra ainda, a ideologia, o destino, o diálogo. O coletivo Duas Marias entra neste diálogo como voz. Participa das imagens reiterando a presença do sujeito-mulher e sua profunda interação com o momento de transformação do papel da mulher na sociedade do século XXI. Não só com seu trabalho artístico, também, com seu destino como mulher e toda sua individualidade e com sua própria voz.

Texto – Dra. Patrícia Virginia Cuevas Estivil

“SE FOSSE VOCÊ...”

“Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Esta assertiva de Simone Beauvoir é sem dúvida uma das maiores provocações sobre o feminino no pensamento social e político do último século, simplesmente porque ungiu à mulher a cultura da possibilidade de compreender-se a si mesma.
Igualmente, a exposição “Se fosse você...”, das artistas Malu Rebelato e Nani Nogara, abre este espaço de reflexão, porém de uma forma ainda tortuosa. Ao permitir-se entrar no mundo das “marias”, o espectador (seja homem ou mulher) revive nas entrelinhas as amordaças e preconceitos de séculos de silêncio e dominação.

Os segredos do mundo masculino, marcado pela força e violência, são apresentados não como uma “marca” do passado, mas como algo latente na pós- modernidade. Se no passado, como diz Hannah Arendt, o feminino era retirado da esfera pública para viver os dramas da dominação privada, hoje esta opressão é mais sutil, porém não menos perigosa, pois ainda submete a mulher a costumes, crenças e convenções sociais, tornando-a prisioneira de si mesma!

Face a tantos aprisionamentos, ainda nos resta a arte. Eis aqui uma boa oportunidade para a mulher dizer não a um estado de coisas e pactuar um novo começo, mais próximo do que se pode chamar de mulher-individualidade, não apenas uma sombra do homem. Afinal, sempre haverá um espaço de liberdade!

Texto - Rejane Martins Pires

MINI BIO

Coletivo Duas Marias é formado pelas artistas Malu Rebelato e Nani Nogara que trabalham em parceria.
O trabalho das artistas localiza-se entre o registro documental histórico e o imagético, mantendo um diálogo com a literatura e a vida real da mulher contemporânea. Criam situações e personagens arquetípicos, que são fotografados em meio a cenários idealizados pelas próprias artistas, numa mistura de realidade e utopia, sendo que as personagens são sempre encarnadas por uma delas.

Buscando inspiração na história da arte, utilizam-se da estética de distintos períodos artísticos, como o claro/escuro do barroco, os cenários metafísicos de “De Chirico” ou os temas simbólicos do romantismo. Imagens que evocam seres oníricos e mitológicos, ou que remetem às pinturas de “Delacroix” e também à antigas estátuas gregas; cenas e expressões de loucura que relembram antigas feiticeiras e correntes que remetem à prisões psicológicas e pressões sociais.

É um trabalho que questiona crenças, hábitos, convenções sociais e enfatiza os motivos que impulsionam as mulheres pela vida; sensações, crenças, sentimentos, experiências, trabalho, desejos e sonhos.

 

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