ANA LUCIA CAMPHORA

SOBRE O TRABALHO

Neste ensaio fotográfico mostro um processo de investigação, a demarcação de um desastre. As fotos integraram uma experimentação gráfica apresentada em dezembro de 2018, na exposição anual de alunos da Escola de Artes Visuais, materializada como um ‘livro inventado’, conceito discutido e explorado pelo artista e professor Marcos Bonisson.

 

Aqui, me cabe examinar como a imagem emerge enquanto tento esboçar uma narrativa, sempre alegórica e ativa como inscrição da memória. Cada fotografia que se inscreve na superfície é uma elaboração, uma ficção de camadas estratificadas, fragmentos sobrepostos que nos preenchem. Com esta série, revisito o intangível impacto do desastre ambiental de novembro de 2015, com o rompimento da barragem do Fundão, MG, da empresa de Samarco Mineração S.A. A extensão desse impacto ambiental, social e humano provocado pelos rejeitos de mineração evoca impressões sobre o alcance e a internalização desses danos. Uma experiência subjetiva, atemporal, não restrita às circunstâncias locais. Me projeto nesses territórios admitindo se tratar de um dizer o que de tão tangível se torna indizível em palavras. Assim, experimento uma trajetória particular nessa incômoda paisagem que insiste em turvar a vista.

 

Um desastre transborda sua materialidade, toma forma de lama, difuso, doído no tempo e no espaço extravasa, além dos recortes para envasá-lo não se acomoda na bacia do Rio Doce se desloca em desastres no olhar (envergonhado) coisas e seres revisitá-lo, mas sem retornar ao perverso campo contaminado que é da ordem do acidente, do descontrole, da omissão o desastre habita o inconsciente e por isso retorna.

 

“...e que era a absoluta cruz, a vida concluída, para além de toda conversação humana, o regresso ao amargo.” João Guimarães Rosa (1976)

MINI BIO

Nasci no Rio de Janeiro, onde conclui minha formação em Psicologia (UFRJ, 1988), Mestrado em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social (EICOS/UFRJ, 2001) e Doutorado em Ciências Sociais (CPDA, UFRRJ, 2008). Minha trajetória na arte contemporânea tem início em 2009. Inicialmente, envolvida em processos de escrita e escuta através de contribuições e suporte à concepção narrativa e registros fotográficos para projetos de novos artistas visuais do Rio de Janeiro. Em 2014, participei como produtora executiva do Projeto Echangeur22, executando o planejamento e implantação do projeto de residência artística que tem por vocação reforçar o diálogo intercultural entre França, Japão e Brasil através de encontros de artistas visuais em Saint Laurent des Arbres, entre a Provence e Cévennes, no sul da França, sob coordenação de Marie- Cécile Conilh de Beyssac. Outros diálogos colaborativos aconteceram ao longo de 2017 e 2018, com a criação do Hexagrama Seguinte, um espaço virtual de interlocução com ênfase em experiências criativas de novos artistas. Em minhas pesquisas, além da fotografia digital, investigo composições cartográficas a partir de colagens analógicas, digitais e objetos. Grafismo, escrita e imaginário abrigam uma poética onde coabitam materialidade e abstração (dos territórios que abandonamos, habitamos, em que nos aventuramos). Mapas são cartas políticas, registros de espaços sem horizontes que se sustentam pelo rigor do controle e domínio de territórios. Idealizadas, cartografias são registros mutantes. Seus segredos se inscrevem nas linhas costeiras e bordas das fronteiras, no silêncio das longitudes tocadas por meridianos. Mapas reportam aos deslocamentos da alma, tão autênticos como aqueles que almejam impor ordem aos espaços planetários e suas bandeiras. Redesenhar e subverter esse plano de ordem é o caminho que adoto para acessar deslocamentos interiores. Recorro aos registros cartográficos do corpo (exames radiológicos, eletrocardiogramas e outros mapeamentos) para acessar territórios individuais que situo como auto-retratos produzidos por intermediários técnicos, os equipamentos de medicina investigativa que prescrutam, monitoram e administram os limites e potenciais alterações das geografias orgânicas. Venho acompanhando o trabalho de alguns artistas que exploram cartografias na arte contemporânea, em especial, Boetti, Lise Autogena, Joshua Portway e Ruth Watson.

Em 2018, retornando à Escola de Artes Visuais (Parque Lage, RJ), iniciei estudos em interatividade e programação criativa no Núcleo de Arte e Tecnologia (NAT), sob orientação de Magno Caliman. No presente, desenvolvo pesquisas em linguagens visuais sob orientação de Marcos Bonisson. Alguns dos meus trabalhos foram apresentados em duas mostras de alunos da Escola de Artes Visuais (julho e dezembro de 2018).

 

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