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AMIANTUS, Bahia

Fotografia, desenho e arte digital

SOBRE OS TRABALHOS

Engendros entre colagens e desenhos

 

Há tempos que um conjunto de grafismos chamam minha atenção. Cartografias, partituras, postais, recortes, tickets, mapas de muitos lugares e outros papéis andavam comigo, de casa em casa, de cidade em cidade, em estado de potência. Paralelamente palavras e garatujas eram produzidas e guardadas, esperando um momento de serem agrupadas e fazerem sentido juntas. Não que antes já não estivesse produzindo trabalhos com estes materiais, mas o ano de 2020 foi crucial para surgir uma nova frente de investigação poética.

 

O foco aqui é unir duas linguagens – a colagem e o desenho contemporâneo – em uma trama singular. A colagem é utilizada como tática apropriacionista, desfazendo sentidos prontos e buscando escapar das armadilhas do figurativo. Foram retomadas fotografias pessoais, fragmentos de revistas, livros e enciclopédias, gerando mapas improváveis, como o encontro do polo sul com o bairro da Gamboa ou da baia de Guanabara e com o Oceano Pacífico (na série “Composições para um diálogo interior”, 2 obras expostas de 4). Entendo que todo mapa é composto por grafismos que refletem decisões políticas e tratam sobre visibilidade, poder, contra-ataques e formas outras de existir no mundo. Traça uma representação do mundo, não só pelo o que ele "dá a ver", mas por seus espaços negativos, e reflete uma relação afetiva com o território. A série “Digerindo Rios” (2 obras expostas de uma série de 10) possui recortes de meu primeiro mapa do Rio de Janeiro, quando cheguei na cidade e buscava os espaços de arte (galerias, museus etc).

 

Por outro lado, o desenho que avança pela trama de colagens cresce, se alastra, arquiteta relações, sendo ele mesmo um rizoma, uma garatuja que multiplica e traça percursos próprios. Se “desenhar é equivalente a pensar” (Nauman), o rabisco almeja se tornar autômato e descolar-se do controle do pensamento. Esta “entidade gráfica” surgiu em momentos de ócio da mente, parecido com a prática surrealista do desenho automático. Com o tempo senti que havia uma estrutura. Não exatamente de uma máquina, mas com engrenagens. Crescia como erva daninha, como mato pelo concreto. Foram se tornando arquiteturas, mas sem o dever de sustentar nada. Sentia que havia uma relação com a trama de fios dos postes – o que sempre me instigou. No desenho um dos elementos mais básicos é a linha. E, em cada poste, elas estão ali, algumas paralelas, finas ou grossas, convergindo para certos pontos. Em 2006 comecei a fazer uma série de fotografias pelos caminhos por onde passava, recortando pedaços e criando pequenos ensaios. Em 2018 retomei este acervo com outros padrões de crescimento: as plantas que surgem no asfalto, que brotam pelas brechas do concreto. Foram se tornando organismos de natureza mista. Chamei de "PluriOrganoGrafismo" e são imagens criadas através da colagem digital.

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Minha relação com a música e as artes sonoras também aparece nesta poética. Assim como o mapa se pretende ser a representação do espaço, a partitura busca materializar os sons do mundo. Um exame cardiovascular aponta o pulso da vida (com na série “Traçado do Ritmo”, de 2016, 1 obra exposta da série de 3), mas não dá conta da cosmologia de ruídos que nos cercam. Fora e dentro. De certa maneira faço desta investigação um movimento contínuo de escuta. Talvez tenha sido o silenciamento do mundo que tornou esta poética possível, resgatando antigos trabalhos e abrindo caminho para uma nova verve. Ou o isolamento de 2020 tenha me dado forças para seguir no mergulho. A âncora segue sendo a própria poiésis.

 

 

BIOGRAFIA

Marcelo Wasem nasceu em Criciúma (SC). Morou em Florianópolis (SC), Bilbao (País Basco) e Rio de Janeiro (RJ). Vive e trabalha em Porto Seguro (BA).

Participou de projetos de arte no Museu da Maré (Ondas Radiofônicas: processos colaborativos em arte pública e sonora) e Circuito Interações Estéticas (Rádio Interofônica) em 4 capitais do país (2010-2012). Participou da obra-restaurante Restauro, para 32a. Bienal de Arte de São Paulo (2016). Possui doutorado em Poéticas Interdisciplinares pela EBA/UFRJ. Foi professor substituto na UFF (Niterói, RJ) e UERJ/FEBF (Duque de Caxias, RJ), professor adjunto no Instituto de Artes (UERJ/RJ) entre 2014 e 2018 e hoje atua na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), na cidade de Porto Seguro (BA). Foi coordenador do curso “Som, Imagem e Movimento” nesta instituição de 2018 a 2020 e é líder do Grupo de Pesquisa "OCA: Outreidade, Colaboração, Artes".

Artista visual, músico e trabalhando com espaço público, rádio-arte e práticas artísticas com foco na alteridade. Interessado em poéticas colaborativas, desenho, escultura, colagens, sonoridades e radiofonias. Atualmente investiga as relações do pensamento ameríndio e saberes afrodiaspóricos para outras bases do fazer artístico no mundo. Com esta atual poética assume um antigo codinome: Amiantus.

Observação da organização:

Os trabalhos expostos na exposição virtual, podem sofrer alterações de tamanho para não ficarem prejudicados a visualização pela web.